segunda-feira, junho 09, 2014

Feia

Quando eu tinha nove anos quebraram meu coração pela primeira vez e eu perguntei para um menino da minha sala na escola porque é que ninguém gostava de mim, segundo ele, a culpa era das minhas sobrancelhas as quais cresciam juntas e grossas. Depois disso, as pobres duraram pouco na minha mão, porque pensar não era o meu forte quando se tratava da opinião de meninos. Eu acabei usando uma toca de lã vermelha em pleno verão por algum tempo até que elas crescessem novamente depois desse episódio.

Acho que a segunda vez que quebraram meu coração não foi muito tempo depois disso. Logo  no ano seguinte, eu acho, e a culpa era de um molequinho da escola: magrelo, dos cabelos pretos, provavelmente mais baixo do que eu e absolutamente a grande paixão da maioria das garotas da quarta série. Eu, que sempre fui corajosa, nunca acreditei nessa bobeira de "a curiosidade matou o gato", então, enquanto os dias passavam, eu, com a mente efervescente de que começa a descobrir o mundo e seus sentimentos, logo eu tive de pedir para algumas amigas o questionarem. Gostava o bendito de mim ou não? Eu me escondi no banheiro e esperei com o meu coração ainda inteiro pra saber qual seria a resposta.
E eu tenho certeza que eu chorei naquele banheiro aquela tarde.

Mas isso era tudo coisa de criança, passa rápido e a gente lembra com um sorriso no rosto. Foi é nas férias na praia, no inicio da minha puberdade, que eu conheci o primeiro grande babaca da minha vida. Aos onze anos eu me apaixonei pelo cara que mais do que o meu coração, quebrou a minha confiança. Não que ele, com 15 anos, fosse grande coisa, mas eu gostava bastante dele, ele era aquele cara que a gente sonha antes de dormir e fantasia sobre a vida que a gente vai viver juntos, mas de novo deu tudo errado, porque, segundo ele, eu era feia. Horrorosa de feia.

O meu primeiro beijo aconteceu quando eu tinha treze anos. Era uma festa de debutante de uma amiga e quando eu menos esperava a pista de dança se tornou o cenário daquilo que eu esperava havia um tempo. A gente ficou lá se amassando por umas três músicas e eu achei aquilo o máximo. Era tudo perfeito. Foi só umas umas três semanas depois que deu tudo errado.
Aparentemente ele havia me beijado por pena e quando a história chegou aos meus ouvidos, eu não pude evitar, mas chorar por horas a fio enquanto ouvia minha mãe falar que "meninos são assim".

Eu não sei exatamente como eu reuni coragem para continuar me envolvendo com o sexo oposto depois de tantos episódios que arruinaram tão prematuramente a minha vida romântica, acho que foi até por isso que eu passei grande parte da minha adolescência apaixonada pelo meu melhor amigo, acho que foi a segurança de entregar meu coração na mão de alguém que eu conhecia tão bem (e que me conhecia tão bem) fez toda a diferença.
Claro que a gente não deu certo, mas não fosse ele e esse blog nem existia, porque foi com ele que eu decidi que "borboletas nunca mais".

Foi só com dezessete anos eu tive meu primeiro namorado, porém se a história fosse simples nós não estaríamos aqui lendo um texto cujo o título é "Feia".
Bom, o começo da história é clássico, "garota conhece garoto, longas e sentimentais conversas acontecem até que eles se beijam a luz do luar e blá blá blá...", só o que o conto de fadas durou pouco, porque a princesa percebeu que beijou o sapo errado.
É, pois é. Eu quebrei um coração também.
Eu tentaria me justificar aqui, mas não valeria a pena, a história é o que é... A única coisa que não era nessa história, era amor. Não era. Simples assim. A gente até podia achar que era, mas não era. Era felicidade de estar com alguém que gostava de estar com você, só que felicidade não tem nada a ver com amor. E ele me mostrou que eu sou mais mimada, difícil, machucada e orgulhosa do que eu achei que fosse, mas ele não me fez sentir amada, ele só me fez feliz até o dia que não fez mais. 

Esse texto tem que seguir para um fim e eu acho que a úncia forma justa de terminá-lo é contando como, depois de dezoito anos de coração quebrado, eu acordei um dia e percebi que estava tudo bem, que não tinha problema em ser quem eu sou.
Bom, para começar que eu fui viajar. E viajar pra longe.
Eu acho que processo de cicatrização começou ai. Foi longe de casa que eu encontrei a minha casa dentro de mim e, por sorte, encontrei também alguém capaz de assimilar cada pequeno detalhe do meu ser e todos os seus defeitos e ainda assim vê-lo como algo cheio de luz própria.
Foi a primeira vez que eu não me senti sozinha.
Tudo bem que depois disso ele voou 13 mil quilômetros para longe de mim, mas não fosse ele e eu era só pó.

É aquela de coisa de saber que mesmo estando triste, eu estou em em paz comigo mesma. E isso importa mais que muita coisa.
Se eu pudesse dizer algo sobre as coisas que eu aprendi, eu diria que felicidade é caos e que para coração quebrado, existe um coração disposto.

Sobre a tristeza, essa passa até a hora de dormir...
E um dia eu acordo toda bem com alguém me chamando de meu bem.




Um comentário:

Fábio Antunes disse...

Ri com seu texto. Muito feminino, história de "mulherzinha", rsrsr, ou seja, muito lindo, cheio de coisa linda! Continue amando. Amar é pra corajosos! Abraço.