domingo, abril 03, 2011

Stuck.

"Cala a boca, pega a porra do carro e me leva pra casa, seu merda." disse ela enquanto batia a porta atras de si. Tudo que ele pensou no segundo seguinte foi que ela estava realmente magra. Ele coçava o queixo com uma das mãos enquanto mexia nos cabelos louros com a outra. A barba por fazer ainda cheirava ao último baseado. Estava alto demais pra saber o que dizer, mas ele queria mesmo saber o que dizer pra ela, mesmo que ele não  lembrasse nem por que ela estava tão brava. Sugou o quanto de ar que pode e então soltou, tentou focar no que ela queria que ele fizesse. "Levar ela pra casa" lembrou ele com um pouco de esforço, por que quando alguém fala três mil palavras por minutos, se torna impossível acompanhar. Então quando ela falava "cala a boca", ele obedecia. Não que isso significasse que ele entenderia as outras duas mil novecentas e noventa e nove palavras que ela falaria naquele mesmo minuto. Mas na verdade, ele gostava de quando ela falava. O som da voz dela lembrava a música favorita dele e, na maioria das vezes, ele começava a cantarolar baixinho, o que ela, ao contrário da maioria das pessoas que falam demais, sempre percebia. Ele sempre soube que isso a deixava irritada, mas ele adorava quando ela ficava irritada. Era alguma coisa sobre olhos extremamente castanhos que se transformam em buracos negros e te sugam para dentro deles, ela nunca entendeu, mas adorava a maneira que ele sorria enquanto ela perdia o controle. Ele tentou lembrar por que isso não acontecera hoje, mas ele não conseguia lembrar. Pensou que talvez não fosse culpa dele. Então ele colocou as mãos no bolso da bermuda de cor cáqui e pegou as chaves do carro. Assim que fechou a porta de casa atrás de si ele a viu sentada dentro do carro contendo um incontável número de lágrimas que se acumulavam contra a retina em uma daquelas batalhas desnecessárias contra nosso coração. Os cabelos tão castanhos quanto os olhos estavam mais compridos do que nunca, reparou ele. Entrou no carro e sentou-se no banco do motorista, colocou a chave na ignição, mas não girou. Com ambas mãos sobre os joelhos, ele repousou a cabeça no banco do carro e olhou para ela que soluçava um pouco enquanto algumas lágrimas ainda lhe pendiam da ponta do nariz. Uma mecha de cabelo lhe caia sobre o rosto e contrastava com a pele cor de oliva. "Eu te amo, meu bem." ele deu um daqueles sorrisos que ninguém consegue ver e ficou feliz por finalmente saber o que dizer, e ele disse com a voz aveludada de quem só diz coisas boas. "Eu te amo também" disse ela que sabia ter perdido aquela luta a muito tempo. Ela estava feliz por ainda o amar, mas cansada da maneira que ela precisava dele fazia tanto tempo. Ela que nunca precisou de ninguém. Para ela, era tudo sobre olhos tão claros quanto o céu que está sempre ensolarado. Ela queria sair para chuva, mas era como se, toda vez que ela tentasse, ele soubesse o que dizer, o que fazer. Então ele a puxou mais para perto de si e a beijou. Chapado ou não, ele sempre soube como a beijar, pois assim como em qualquer quebra-cabeças, determinadas peças são feitas para se encaixar.
Ele nunca a levou para casa naquela noite e, talvez, se eles nunca dormissem, seria aquela noite para sempre.

19 comentários:

verônica hiller. disse...

lembrou MUITO blair e nate (:

ana minhalma disse...

obrigadaaa! :)
sao muito lindinhos

luisinha disse...

ohhhh:) que blog taaaao doce.

Camila disse...

Isso foi muito bonito *-*

Ana Morais disse...

Tudo muito leve, doce... Resolvi ficar.

Alicia disse...

E que assim fosse...!

béc's. disse...

adorei :)

Por que você faz poema? disse...

Duas almas
na eternidade
de uma noite.

Andressa Nunes disse...

tão romântico e tão real. :)

ana moura disse...

lindinho:)

béc's. disse...

gostei muito, minha querida :)

Sara Martins disse...

obrigada linda

Marie disse...

Muito bom!

béc's. disse...

é mesmo, minha querida :)

Long Haired Lady disse...

cenas do cotidiano de quem ama…rs

Os intrigantes pensamentos da Lud disse...

Alguns textos me fazem sentir como o personagem - e ah, como adoro ser surpreendida dessa forma!
A melancolia, a confusão, o não saber como agir, o que falar, ou mesmo o esquecimento de algo tão importante para alguém foi como ver parte de mim, desnudada, diante dos olhos. Belíssimo, realmente.

Abraços!

Mari disse...

Um desses, acho que 'só a bailarina que não tem'...
Excelente, dona. :)

Daniela Filipini disse...

Que lindo, de verdade. "Seria para sempre aquela noite"
Lindo, muito lindo.

Mariana de O. C. disse...

maravilhoso... voce descreveu o conflito amor x dependência de um jeito suave e lindo!